Mrcio Cavalca Medeiros
No deixo de ficar emocionado todas as vezes que vejo na televiso o desastre que aconteceu no Haiti e a luta pela sobrevivncia que aquele povo mostra todas as vezes que uma equipe de reportagem aparece. Penso que seja impossvel no se sensibilizar por tudo aquilo. Verificar como possvel um ser humano no sculo 21 viver naquelas condies e chegar a comportamentos dos mais selvagens para lutar por comida, gua ou pelos seus bens que sobraram.
Admito que por muitos dias imagens fortes sobre o terremoto e a luta dos haitianos me incomodaram. Choro, desespero, mortes, crianas e velhos feridos, pais e mes desesperados pelo sentimento de impotncia e principalmente o olhar profundo de cada um dos que sobreviveram, sem ter uma esperana a imaginar foram detalhes que muitas pessoas perceberam. Ao ver aquelas condies lamentveis em que o povo do Haiti vive, fiquei a pensar como isto seria possvel, ainda mais com um terremoto naquelas propores? Como pode tanta desgraa acontecer num mesmo local? Que culpa aquele povo tem, por viver em condies to miserveis, e ainda sofrer um terremoto arrasador?
No encontro respostas para estas perguntas, mas consigo transportar estas minhas indagaes a uma realidade que est bem prxima de mim. Ao passar em locais perifricos da cidade em que vivo, comeo a recordar as imagens que as emissoras de TV insistem em mostrar, do povo do Haiti, nos principais horrios da televiso constantemente. Cheguei, certa vez, pensar que estavam falando do Haiti, mas era sobre as enchentes de So Paulo, as catstrofes de Paraitinga, e at mesmo fiz confuso sobre os acidentes em Agra dos Reis. Em um dia em que Marlia foi vtima de um temporal, fotos nos jornais mostravam o estrago que a populao mais carente de minha cidade sofreu, e eu imaginei que fosse o Haiti.
Lembrando da msica de Caetano Veloso em que ele diz que o Haiti aqui, passei a refletir a dimenso dos problemas. Assim sendo percebi que somente grandes naes podem ajudar o povo haitiano. Navios, avies, carros, tanques (de gua), exrcito (segurana), e ONGs especializadas em catstrofes que so os meios emergenciais e que faro algo por aquele povo imediatamente. Minha ajuda nfima. Naturalmente se eu me unir a outros, pode ser que faa alguma diferena a longo prazo, mas penso ser incapaz de fazer algo pelo povo do Haiti a qualquer momento, mas posso fazer pelo povo de Marlia ou de cidades prximas, ou at mesmo dentro do meu Pas.
Ao assistir uma apresentao de uma voluntria que esteve em Guayaquil, no Equador, fazendo parte de uma Misso Humanitria do Rotary International, enxerguei que a minha vocao de voluntrio pode ser desenvolvida na comunidade em que estou. Ou at mesmo em regies miserveis dentro do meu prprio Pas. Senti que eu seria a diferena neste sentido, e que a minha simples presena (sem fazer qualquer coisa) poderia ajudar em algo. Ao ouvir a Lilian Moraes mostrar o quanto foi importante esta misso para o povo equatoriano, fui me enchendo de motivao para fazer algo por aqui mesmo, sem a necessidade de ir to longe.
Vendo como o Haiti est transformando o mundo em naes humanitrias, e vendo o que o Rotary International capaz de fazer sozinho, aprendi que ao dedicar-me em aes simples, prticas e dentro de minhas possibilidades, posso ajudar qualquer um em qualquer lugar. Tenho conhecimento que as famlias carentes de minha cidade so assistidas pelo Poder Pblico e por diversas instituies filantrpicas e assistencialistas, em que minha presena talvez fosse desnecessria, se eu a trocasse por donativos ou alimentos. Seria mais til e menos trabalhoso.
Ao assistir o trabalho voluntrio que foi feito no Equador, imaginei as regies mais interioranas do nordeste, sul ou at mesmo no norte do Brasil. Imaginei os problemas indgenas at hoje mal resolvidas pelas equivocadas polticas pblicas, ou at mesmo pelo antigo Projeto Rondon, que sempre tive idolatria em fazer parte, em que poderia ajudar com a minha simples presena e com a pouca experincia que adquiri na vida. Ou seja: no consigo ajudar o Haiti, mas posso ajudar o Brasil.
Estou colhendo informaes de como fazer isso. Naturalmente sendo rotariano convicto, farei parte de uma Misso Humanitria que a organizao que fao parte pretende desenvolver, graas ao entusiasmo desta moa, Lilian Moraes, da cidade de Rancharia, que vem contagiando as pessoas que prestam ateno na essncia deste trabalho realizado por ela. Quando isto acontecer, sentirei a recompensa fsica, moral e espiritual de como necessrio e vital para a vida de qualquer pessoa, ajudar desconhecidos com o nico propsito de ajudar, seja como for. Vendo o Haiti, a frica, o Equador e tantos outros locais miserveis deste planeta, vejo o quanto importante dar de si antes de pensar em si, que a meu ver deve ser a nica razo de nossa existncia. Qual a importncia que existe em viver sem ajudar o outro?
Mrcio Cavalca Medeiros, radialista, empresrio e jornalista
E-mail: marcio@medeiros.jor.br
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