Walter Belik e Otavio V. Basaldi
Uma expanso de 4,2% na rea plantada com gros e oleaginosas nesse incio de ano dever proporcionar aumento de 1,5% no total de equivalentes-homens-ano (EHA) demandados pela agricultura. Essa a principal concluso da primeira estimativa da demanda de mo-de-obra na agricultura brasileira feita pela Fundao Seade, com base nos dados do IBGE. Houve melhoria da expectativa em relao ao fim do ano passado.
Analisando os componentes desse aumento, pode-se destacar que a soja dever ter crescimento de 15,1% na demanda por trabalhadores, decorrente de expanso de 13,5% da rea. O comportamento da soja surpreende, pois as cotaes internacionais estiveram em ligeira baixa em 2001. O preo mdio alcanado pela soja brasileira exportada ficou em US$ 185,20/tonelada, ante US$ 293,80/tonelada obtidos em 1997.
Em fevereiro deste ano, o preo chegou a US$ 150,00/t. Pode-se apontar dois fatores que explicam o crescimento da rea plantada: a disparada do cmbio no plantio e as perspectivas de quebra da safra americana em meados do ano passado. Chama a ateno o aumento de quase 2 milhes de hectares cultivados com soja na safra 2002. Aps o perodo de plantio da safra brasileira verificou-se que nem o cmbio desvalorizou-se de forma mais acentuada e nem a safra americana teve a quebra esperada. A desvalorizao do real no foi suficiente para compensar a baixa nas cotaes, nem a quebra de 4% na produo de soja dos EUA foi capaz de segurar o movimento baixista.
Outro produto que apresentou crescimento de rea foi o feijo (11% em relao safra passada, resultando em aumento de 9,6% na demanda de mo-de-obra). Atribui-se o crescimento aos bons preos no mercado domstico.
Essa perspectiva j estava presente em meados de 2001, com a quebra de safra do Nordeste. No incio do segundo semestre os preos elevados foram confirmados com a perspectiva de racionamento de energia, que poderia afetar o cultivo do feijo irrigado. Esse fator acabou no ocorrendo, mas os preos elevaram-se.
No caso do milho, outro produto com grande ocupao de mo-de-obra, os preos pagos aos agricultores tiveram alta significativa ao longo do ano.
Mas no houve aumento de rea. No comparativo com 2001, a rea de milho reduziu-se em 4,6%. A explicao est na maior rentabilidade e liquidez da soja. Muito do crescimento das reas de milho em safras passadas pode ser atribudo substituio de reas de soja. No momento, os produtores de milho esto receosos das perspectivas de baixa do milho provocada por reduo nas exportaes de carne de aves e sunos, e da concorrncia do produto argentino, resultado da desvalorizao do peso.
Tirando-se o caso dos gros, merece destaque o crescimento de 1,3% na demanda de trabalhadores para a cana, expanso apoiada no crescimento da rea plantada impulsionada por dois anos de boas cotaes. Desde o incio do ano, os preos do acar esto em baixa, mas os avanos decorrentes de um maior plantio nos anos anteriores leva necessidade de uma demanda maior de trabalhadores para a fase de tratos culturais e corte. Provavelmente, os preos do acar e do lcool devero cair nos prximos meses, com a superproduo da cana.
Foi registrada reduo na demanda de fora de trabalho do caf, cacau e algodo. Em todas essas culturas v-se um movimento de queda de preos aps uma fase de expanso do cultivo. A queda na cotao de caf no generalizada e no se aplica ao cultivo de cafs finos, que continuam com aumento na rea plantada.
Passada a queda dos preos no mercado internacional decorrente da recesso da economia americana e do choque causado pelos atentados terroristas, a tendncia de de recuperao. Novos fatores de tenso podero surgir, como o recente aumento nos subsdios aos produtores americanos de soja e milho, mas h um crescimento da demanda impulsionado pelo aumento no comrcio internacional e pela entrada de pases compradores como a China no mercado.
Walter Belik e Otavio Valentim Balsadi so professores da Unicamp
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