Horcio Lafer Piva
Nas ltimas semanas, ganhou espao, em crculos acadmicos, empresariais e da mdia, a rediscusso de modelos de poltica econmica para uma prxima gesto. Tal fato ocorre, claro, por causa da politizao do debate graas s eleies de 2002 e, principalmente, por causa das fragilidades com que estamos e estaremos lidando se nada for feito rapidamente.
O que impressiona, contudo, que, em vez de o fato ser recebido como algo saudvel, testemunhamos tentativas absurdas de desqualificao, geralmente sustentadas por donos da verdade com duvidoso compromisso com um Brasil que no pode mais dispor de tempo. Em vez de avaliar o que significaram a falta de uma poltica industrial inteligente para pases como Brasil e Argentina e o diferencial que a mesma trouxe para EUA ou regies da sia, simplificam a anlise sob o manto difano das hegemnicas polticas fiscais e monetrias, dizendo que a indstria brasileira , na maioria, sinnimo de atraso.
A poltica industrial que o mundo tem no se confunde com a que seus adversrios entendem como ultrapassada. No aquela que escolhe vencedores e perdedores e que desconsidera competitividade, pesquisa, inovao, ofensiva exportadora e substituio competitiva de importaes. Alegar que o empresrio gosta de inflao, sobrevive s com subsdios e tem os olhos no passado miopia ou falta de carter. Aos crticos legtimos, pedimos desde j seriedade e compromisso com a verdade.
J est claro para a sociedade brasileira que no resolveremos os nossos problemas se no pelos virtuosos caminhos da produo. E no a retomaremos com o vigor necessrio sem uma parceria inteligente entre o Estado e a iniciativa privada. Ns estamos no jogo. Transformamos este pas de uma grande fazenda numa potncia industrial. Fabricamos produtos de padro mundial, somos "global players" e temos a classe empregadora e trabalhadora mais criativa do mundo.
Distribuio de renda, que s pode ser conseguida com a estabilidade, agrega mais consumidores para nossos prprios produtos. Tecnologia, que depende de olhos no futuro e insero internacional, abre mercados externos e nos permite enfrentar competio interna.
Situao fiscal equilibrada nos traz segurana atravs de um cmbio estvel e de taxas de juros reduzidas. Alegar que o empresrio gosta de inflao, sobrevive s com subsdios e tem os olhos no passado miopia
Desejamos apenas um ambiente competitivo, sem assimetrias significativas. Condies de operao macro e microeconmica parecidas com as de nossos concorrentes. Entendimento frtil com as universidades, com o Itamaraty, com os bancos de fomento e com o mercado de capitais. Estrutura de custos compatvel com o desafio da globalizao. No temos medo de ousar e queremos o mesmo do governo. Que no seja ingnuo e enxergue o protecionismo dos pases desenvolvidos. Que aceite a necessidade de pactuarmos um projeto para o pas. Que entenda sua responsabilidade enquanto gestor, definindo metas e prazos, com um olho nas suas obrigaes fiscais e outro no futuro de seu povo. Que opere, coordene e integre seus instrumentos, planejando e agindo sem intervenes burocrticas.
Onde est a poupana interna? E as reformas? Que beco esse em que nos metemos, com um passivo externo de US$ 400 bilhes, uma dvida interna de R$ 600 bilhes, com encargos de 50% de nossas exportaes para a primeira e 50% da arrecadao de impostos federais para a segunda? Est claro que, sem a reduo do Estado, sem uma soluo para a balana comercial e sem competitividade, perpetuaremos a condio de pas perifrico, independentemente das boas relaes nos crculos financeiros internacionais.
Poltica industrial no moeda eleitoral. matria que no permitiremos ser tratada de maneira leviana ou deslocada de um compromisso de curto, mdio e longo prazos. Se for item da agenda dos candidatos, que seja com densidade e profundidade, pois cobraremos sua consistncia. O Brasil no pode se dar ao luxo de no crescer. E tem de consolidar avanos importantes da atual gesto, que, embora tenha cometido graves erros de ao e avaliao exatamente por colocar-se distante de seus crticos mais saudveis, venceu batalhas importantes, como a da estabilidade e a da Lei de Responsabilidade Fiscal.
Mas, se o pas no for pragmtico, no compreender seu papel estratgico e no incorporar o tema do desenvolvimento e do crescimento sustentado com justia social, estar adensando a desigualdade, maculando nosso passado e afastando-nos do futuro. Isso seria, alm de burrice, um crime de lesa-ptria, que cabe a ns, sociedade, impedir. Candidatos, fiquem atentos ao compromisso e responsabilidade. Estamos prontos para cobrar.
Horacio Lafer Piva, 43, presidente da Federao e do Centro das Indstrias do Estado de So Paulo (Fiesp/Ciesp).
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