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Título: Engenharia e Arquitetura: Valorizao Profissional Parte 2
 
Adilson Luiz Gonalves


Um profissional da rea de arquitetura recebe um cliente (s vezes tem de ir onde o cliente est), analisa suas necessidades, elabora estudos tcnico-financeiros que tomam tempo e recursos prprios. Dependendo do estudo, dias so consumidos. No se cobra consulta e, raramente, hora tcnica. Comumente, este estudo, depois de visualizado, considerado inadequado. Curiosamente, a obra acontece de forma semelhante pelas mos de profissionais no-habilitados - tambm por culpa nossa -, referendada por profissionais habilitados no papel, mas irresponsveis na conduta.
Na hiptese de o cliente aceitar a proposta porque vai lucrar mais, comum a exigncia de reduo de preo, parcelamento e flexibilidade de pagamento, sob a alegao de que existem outros que fariam pela metade. Mais uma vez, culpa nossa!
Supondo que o profissional no seja especializado no assunto, indicando outro colega, considerado incompetente, como se fosse possvel um nico profissional dominar todas as reas da engenharia e da arquitetura.
Quando assume a responsabilidade e no resolve o problema, incompetente, uma vez mais, com o agravante de ser responsvel civil e criminalmente por qualquer prejuzo material ou humano. Qual a postura de parte significativa da categoria? Condena sem julgamento e, se puder, joga a "p de cal", escondendo, sob o manto de profissionalismo, o pensamento mesquinho do "um a menos". O Cdigo de Defesa do Consumidor facilitou, ainda mais, o acionamento dos profissionais, estendendo sua condio de lei de f pblica, s normas tcnicas oficiais, com as exigncias e prazos de responsabilidade pertinentes.
Pergunta:
Algum j ouviu falar de mdicos e advogados serem acionados pelo Cdigo de Defesa do Consumidor por frustrao de expectativa, tratamento ineficaz, seqelas, infeco hospitalar, perda de prazo processual, falha processual, negativa em receitar remdios genricos, diagnstico errado, se recusar a visitar um paciente aps ser notificado que o mesmo foi vtima de grave crise em virtude da anomalia em tratamento e privilegiar clientes em detrimento de outros?
certo que toda a categoria sofre com os deslizes tcnicos e ticos de seus membros. Tambm bvio que existem mecanismos de reivindicao especficos para cada rea, alm dos de natureza comum. Mas fato que as reas de medicina e direito so das poucas que recebem remunerao sem a exigncia de resolverem o problema proposto, alm de no terem sua credibilidade significativamente afetada por insucessos. No se pode, contudo, deixar de reconhecer que esto sujeitas a grande presso psicolgica pelo envolvimento direto com seres humanos, seus dramas e suas mazelas. Todavia, existem outras profisses, com carga emocional semelhante e que nem por isso privam da mesma condio diferenciada.
Voltando ao caso dos engenheiros e arquitetos, se o problema for resolvido, o profissional ainda ser responsvel pelo seu trabalho por anos, devendo custear qualquer reparo decorrente de problemas conceituais ou construtivos. Embora construam hospitais, escolas, tribunais, casas, infra-estrutura urbana, veculos e equipamentos, melhorem a produtividade agrcola e industrial, ampliem a produo ou reduzam o consumo de energia - assumindo os riscos de viabilizar sonhos e necessidades de forma cada vez mais rpida, bela, funcional, durvel e econmica, recebem pouco crdito ou reconhecimento pelo seu trabalho, normalmente capitalizado por usurios finais ou polticos.
Engenheiros e arquitetos tm por obrigao transformar sonhos em realidade, melhorando a qualidade de vida das pessoas. Mas como fazem isso para uma quantidade grande de clientes ao mesmo tempo, seus mritos nem sempre so reconhecidos de maneira individualizada. Normalmente, os usurios nem sequer tm conhecimento da natureza e da importncia deste trabalho. A atuao dos engenheiros e arquitetos, alis, s lembrada quando suas obras apresentam problemas. Caso contrrio, conforto, emprego, funcionalidade... e esquecimento.
Isso pode parecer despeito com as profisses, de inegvel mrito, utilizadas nessa analogia, mas no . inconformismo com um estado de aviltamento profissional que ajudamos a moldar e que estabeleceu usos e costumes que, por exemplo, consideram que se tratar sem o concurso de um mdico ou tentar acionar a justia sem um advogado inconcebvel, mas contratar um mestre de obra ou um pedreiro para fazer um "puxadinho" clandestino no carece de maiores escrpulos ticos.
Estudantes de medicina e direito j se autodenominam doutores desde o primeiro ano de suas graduaes, at incomodando-se quando o tratamento esquecido, enquanto engenheiros e arquitetos s o fazem aps anos de mestrado e doutorado e, mesmo assim, h colegas que questionam a faculdade de origem e a universidade que concedeu o ttulo. Somos ns muito rigorosos e pragmticos, ou eles muito flexveis e elitistas?
Ento? Qual o motivo dessa discrepncia entre o status dos mdicos e advogados e o dos engenheiros e arquitetos?
A resposta : autovalorizao profissional e tica!
Se no nos unirmos e aprendermos a nos valorizar enquanto categoria, continuaremos a ser eminncias pardas da sociedade.
Isso no implica em passarmos a usar roupa branca, terno e gravata, fecharmo-nos "em copas" ou falar em latim, afinal cada profisso tem suas peculiaridades. Passa, sim, pelo fortalecimento dos organismos de classe, sejam reguladores ou sindicais. Exige um esforo intensivo e continuado de publicidade das potencialidades e realizaes das categorias e de uma firme e unssona atitude de defesa das categorias.
Adilson Luiz Gonalves engenheiro civil e professor universitrio
 
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