Título: ARTIGO - Nós escolhemos os ídolos que queremos
 
Márcio C Medeiros

Sou fã do Ronaldo. Admito isso e justifico. O cara é um exemplo de que mesmo fazendo bobagens é admirado. Fala errado, não demonstra ser culto, é simples, não ostenta a riqueza que tem, sempre mal acompanhado de homens, quando está com mulheres é por interesses, físico de gordo e deduzo que deva ser uma pessoa difícil de conversar e trocar idéias. Diante de tudo isso, as vezes forço-me a confirmar a admiração que tenho por ele. Nunca o vi pessoalmente, se quer troquei palavras. Naturalmente a admiração que tenho por ele é platônico.

Ao observar toda a atenção que a mídia dá ao Ronaldo Nazário, centroavante do Corinthians, considerado no Mundo como “o fenômeno”, vejo que meu ídolo é um ser normal como qualquer outro ídolo. Dos 18 anos em que fui cronista esportivo, tive oportunidade de conviver com dezenas de ídolos no futebol como: Emerson Leão (jogador e treinador), Telê Santana, Wanderley Luxemburgo, Rai, Careca, Muller, Zico, Sócrates, Neto, Jorginho, e tantos outros craques, em que aprendi a torcer por pessoas e não por times ou clubes de futebol. Sempre que eu me identificava com determinado ídolo eu passava a torcer para que ele sempre se desse bem, independente onde estivesse. E assim são os ídolos que tenho e sou torcedor de pessoas e não de times. Perdi minha identidade “clubística” em razão de ser amigo de pessoas que trabalhavam no futebol, e passei a torcer por treinadores, jogadores e diretores. Pessoas que eu penso que sejam boas.

Com Ronaldo “o fenômeno” é diferente, pois nunca tive qualquer contato com ele. Com Pelé, tive oportunidade de entrevista-lo algumas vezes, e o defino como “especial”. Todas as vezes que entrevistei Pelé, senti algo de diferente na entrevista e ele foi o único que me deixava emocionado no final. Numa delas, fui consolado pelo próprio Pelé, no Pacaembu, dentro dos vestiários na Copa Pelé, quando ele jogou contra a Argentina na final. Minha emoção foi tanta, que quase não consegui terminar a entrevista, quando ele abraçou-me e disse: “Calma garoto. Vai dar tudo certo”. Se existe um momento meu como cronista esportivo que não esqueço, é esse. Tive muitos outros, mas esse é o mais significativo.

O artilheiro Ronaldo também me deixa emocionado com freqüência. Toda vez que o vejo fazendo uma bobagem, fico esperando a superação. É assim em minha vida. Quando tomo noção de que fiz uma bobagem, aguardo a oportunidade de minha superação. Seria essa a minha identificação com o jogador? Pode ser. Acreditando que na vida nada é por acaso, Ronaldo tem a cara e o estilo do Corinthians: não importa os meios, as emoções estão garantidas. Não poderia estar em clube melhor, ele não tem cara de São Paulo, Palmeiras, Portuguesa, Santos ou qualquer outro clube. O cara é tão iluminado que vejo muita gente torcendo por ele, e não pelo clube. Palmeirenses, sãopaulinos, santistas e tantos outros, gostam de ver o Ronaldo em campo, e esperam um gol dele ou um comportamento diferente dele no jogo, independente da camisa que vista.

O Ronaldo não é santo, como Pelé não é. Não podemos esquecer que Pelé teve tantas mulheres e filhos em sua vida, que talvez desse para montar vários times de futebol. Pelé, envolveu-se até em escândalos financeiros com a Unicef e com empresas privadas, sendo Ministro na Era Collor, e nada disso abalou a imagem do ídolo. Com Ronaldo não será diferente, mas o cara sorri de uma forma contagiante, e fala tão simples que qualquer pessoa se contagia. Pelé é assim também, entende (jeito do Rei falar).

Concluo que os nossos ídolos nada mais são do que os sonhos que queremos ter e ser. Sonho ter um carrão... por conseqüência admiro carros. Sonho em ter muito dinheiro... naturalmente só penso em trabalhar, e assim vai. Quando me espelho em alguém, é o desejo que tenho de ser a parte boa daquele ídolo. Não quero ser a parte ruim, difícil e que muitas vezes a gente não quer saber. Só quero a parte boa. Pelé é meu ídolo, por ser uma figura emblemática no esporte. Ronaldo é meu ídolo, porque sempre está se superando. João Paulo II foi meu ídolo, porque era um ser iluminado. Esses ídolos que apontamos são capazes de mudar a história, e pessoas com esse poder devem ser admirados. A humanidade tem muitos exemplos neste sentido.

Kaká, atacante do Milan, é tido como o bonzinho, perfeitinho e tudo mais. Porque será que todos admiram Ronaldo, Romário, Edmundo e tantos outros chamados de “Bab Boys”, e deixam de lado os “santinhos”. Digo que admiramos o que eles são capazes de fazer, naquilo que se propõem a fazer e não pelo comportamento pessoal, familiar e religioso que deveriam ter. Kaká é um ídolo comum, sem destaque como Barichello, Massa, Marta e tantos outros, que fazem bem o suficiente. Não são fora de série. Admiramos só o lado bom, porque até eles têm o lado ruim, que não queremos. Mas sendo ídolo, só se destaca o lado bom. Essa, talvez, seja a vantagem deles de nós mortais que somos cobrados pelo lado ruim que temos. Para o Fã o lado bom já satisfaz. No caso de Ronaldo, sabemos que ele é sem vergonha, mas gostamos dele de graça. Não importam os erros pessoais que ele cometa, queremos os gols...

Márcio C Medeiros é radialista e jornalista
E-mail: marcio@medeiros.jor.br
Blog: http: marcio-medeiros.blogspot.com