Título: Lição que vem do campo
 
O agronegócio brasileiro continua realizando, sem muito alarde, o tão sonhado “espetáculo do crescimento”, que o Governo Lula quer. Dados divulgados no início de julho pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento mostram que o setor foi responsável por 47,2% das exportações globais brasileiras em junho. Em 2004, a cada mês que se finaliza, um recorde é superado. Se não fossem as atrapalhadas do Governo Federal o resultado do primeiro semestre – US$ 18,5 milhões em mercadorias agrícolas exportadas – poderia ter sido ainda melhor.

Descuidos com a vigilância sanitária nos complexos soja, carnes e falta de uma política de marketing mais contundente para o setor do agronegócio contribuíram para que os números registrados ficassem aquém do enorme potencial que o agribusiness nacional possui. Nos últimos anos, os gastos do governo brasileiro em defesa animal sofreram uma redução de 23,6%.

É inadmissível que um país que pretende aumentar suas exportações e ganhar novos mercados exite em realizar investimentos com sanidade.

Uma das soluções encontradas pelo Mapa para sair desse imbróglio é totalmente ridícula: encaminhar projeto de lei que permita ao órgão criar taxas buscando recursos para a defesa agropecuária, ou melhor, que o produtor rural pague novamente a conta pela falta de investimentos no setor.

Segundo cálculos da Secretaria de Produção de Mato Grosso do Sul, o agropecuarista já responde no Estado por mais de 90% do custo total de sanidade. Por exemplo, o produtor rural gasta anualmente com as três campanhas de vacinações antiaftosa R$10, em contrapartida ao investimento de R$1 do governo estadual e de apenas R$0,05 do Governo Federal. Será que os impostos cobrados sobre o montante global que o agronegócio brasileiro gera já não são suficientes para melhorar o valor dos recursos destinados ao setor?

Outro detalhe que os representantes do Mapa esquecem é que as agências estaduais de defesa agropecuária já cobram taxas específicas com finalidade de obter verbas para financiar a fiscalização do setor. Logo, se o mapa insistir, teremos uma “bitaxação”.

Além disso, é preciso lembrar que a margem de lucro do produtor rural se reduzirá ainda mais. Levantamento feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), nos últimos 10 anos, mostra que a alta no varejo é maior que a repassada ao produtor. No segmento da pecuária de leite, por exemplo, enquanto o produtor rural teve um repasse de 70,32% o setor varejista acumulou alta de 160,93%.

Será que o agropecuarista suporta a criação de novas taxas?
De que adianta lutar pelo fim dos subsídios agrícolas dos nossos principais concorrentes internacionais, se o Governo Federal pensa que para resolver mazelas do setor agropecuário é necessário recorrer a procedimentos ortodoxos e ultrapassados.

O produtor rural quer apenas trabalhar e em troca, pede aos governantes que, se não ajudarem, pelo menos não atrapalhem.

Luiz Meneghel Neto é produtor rural e proprietário da Estância 3M