Título: Rotary e Casa da Amizade: Espaços complementares,nunca antagônicos!
 
José Augusto Chaves Guimarães

No decorrer de meus dez anos de vida rotária, tenho ouvido, de alguns rotarianos, mormente nos últimos tempos, severas críticas à existência das Casas da Amizade enquanto supostas concorrentes ou desincentivadoras das ações dos clubes (sic). Para tanto, argumentam que o papel da esposa é permanecer ao lado do marido rotariano, totalmente engajada nas ações do clube.

Em plenos primórdios de século 21, não posso deixar de discordar - e veementemente - de argumentos dessa ordem, uma vez que os mesmos não resistem sequer a uma análise mais apurada, senão vejamos:
Em primeiro lugar, é voz comum o caráter não filantrópico de Rotary em si, o qual deve voltar-se para o incentivo e a implementação de ações de caráter interno, profissional, comunitário e internacional. Nesse sentido, igualmente voz comum é o fato de a Casa da Amizade atuar como um verdadeiro braço filantrópico de Rotary, complementando-o em uma atuação mais abrangente.

Em segundo lugar, e em que pese o fato de as mulheres serem oficialmente admitidas em Rotary desde 1989, ainda modestas - mormente em nosso país - são as experiências de clubes que possuem mulheres em seus quadros. Casos há de clubes que, ainda hoje, são incisivamente contrários ao ingresso feminino em seus quadros (ainda que possam manifestá-lo de forma sutil ou velada). Nesse contexto, cabe concluir que a idéia que se tem da esposa é muitas vezes ainda aquela de coadjuvante da ação rotária, ação essa sempre encabeçada pelo marido e por ele decidida junto a seus outros companheiros de clube, sem o poder deliberativo da mulher.

A vista de tais aspectos, considero as Casas da Amizade (sejam aquelas ligadas a um único clube, sejam, principalmente, as excelentes experiências integradoras e dialógicas de uma Casa da Amizade congregando esposas de rotarianos de distintos clubes de uma cidade) um espaço salutar e absolutamente necessário de companheirismo e de filantropia das esposas dos rotarianos. A título de exemplo, recordo-me da experiência inglesa das Inner Wheels (rodas internas) que representam o caráter propulsor da ação feminina e filantrópica em Rotary.

Igualmente não considero, sob nenhum aspecto, que a Casa da Amizade possa competir com a ação do clube rotário, pois se aquela tem caráter filantrópico e este não, inexiste ponto comum para fins de competição. Desse modo, descabido seria falar em ameaça mas, isto sim, em complementaridade. Seria, a bem da verdade, como se disséssemos que a mão compete com o braço.

A bem da verdade, o que devemos reconhecer é a efetiva capacidade empreendedora feminina o que, não raras vezes, leva a ações sociais mais visíveis da Casa da Amizade do que de muitos Rotary Clubes.
Além disso, e com a indiscutível capacidade de trabalho de nossas esposas, seria subestimar demasiado sua inteligência defender seu engajamento nas ações do clube ao invés (isso mesmo, de forma excludente!) da Casa da Amizade pois, se magistralmente concatenam trabalho, casa, marido, filhos e tantos outros afazeres, conciliar as demandas do clube e da Casa da Amizade é-lhes, no mínimo, café pequeno.

Fica a reflexão: não é chegado o momento de nós, homens rotarianos, repensarmos - e com honestidade - qual o papel que vislumbramos para nossas esposas? Indo além: até que ponto estamos sendo suficientemente dedicados, laboriosos e empreendedores na concretização de nossos ideais rotários? Se tal ocorrer, essa propalada sombra de ameaça da Casa da Amizade deixa de fazer qualquer sentido, pois nela veremos, isto sim, a efetiva complementaridade de nossas ações; vale dizer, um alargamento de fileiras, dando-nos, a todos, cada vez mais visibilidade social.

Ora se inicia um ano muito especial - o do centenário de nossa instituição - quando devemos envidar os mais significativos (e incansáveis!) esforços em prol das ações rotárias. Para tanto, desnecessário é advogar a importância de unirmos esforços em prol da Fundação Rotária, nossa grande mola mestra.

Assim sendo, que tanto os clubes, por meio da ação dos companheiros e de sues cônjuges devem ser atuantes como as Casas da Amizade, em sua ação filantrópica pois se a tônica é que CELEBREMOS ROTARY, devemos, antes de mais nada, incentivar o trabalho em distintas instâncias - seja nos Clubes, seja nas Casas da Amizade - de modo a que os ideais que norteiam nossa instituição possam efetivamente se consubstanciar em espaços múltiplos e complementares revelando a necessária simbiose que deve pautar as relações institucionais.

José Augusto Chaves Guimarães, é do RC Marília Leste, foi presidente rotário e atual chairman de IGE do distrito 4510