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| Adilson Luiz Gonçalves Em geral, as consultas com médicos e advogados são marcadas por atendentes ou secretárias. Como a seleção do profissional é feita por indicação ou catálogo de planos de saúde, nem sempre o interessado tem certeza se o seu caso é a especialidade do consultor. Independentemente do profissional ser apto, a consulta é cobrada ou registrada no plano de saúde. Se o profissional não estiver habilitado, indica outro, que também cobrará consulta. O fato de não ser especialista no assunto, contudo, não implica em nenhum constrangimento à reputação do profissional. Suponhamos que, no caso de um médico, ele se considere apto e resolva o problema do paciente, não importando a despesa gerada: é um santo homem, um instrumento de Deus na face da terra, e merece nota de agradecimento em jornal e tudo o mais! No extremo oposto, imaginando que o problema não seja resolvido, não importando a despesa gerada: foi uma fatalidade, o paciente não seguiu suas recomendações, e merece nota de agradecimento em jornal "Pelo apoio à família nos momentos difíceis". Recebe a solidariedade incontestável da classe. Façamos o mesmo exercício no caso dos advogados: se o profissional não estiver habilitado, indica outro, que também cobrará consulta. O fato de não ser especialista no assunto consultado não gera nenhum "arranhão" na reputação do profissional. Caso ele se considere apto, cobrará honorários e custos durante a tramitação do processo. Na hipótese de causa ganha, o advogado recebe a "sucumbência", ganha fama, aumenta o valor de seus honorários etc. No caso de causa perdida, foi fatalidade, deram azar no sorteio do juiz etc. Infelizmente, cabe ao cliente pagar as custas processuais além das decorrentes da sentença. O médico salva uma vida. O advogado liberta um inocente. É certo que estas ocorrências enobrecem a humanidade e seus beneficiários são, justamente, gratos relevando, inclusive o fato da maioria ter pago para tanto. Afinal, a vida e a liberdade são os dons maiores do ser humano! Pena que alguns inescrupulosos, valendo-se disso tiram proveito de sua ascendência momentânea, arbitrando os valores de uma e outra, segundo critérios próprios. Devemos lembrar que muito da ascendência destas categorias se deve a razões históricas (primeiros cursos universitários criados no Brasil), atraso nos investimentos em infra-estrutura de saneamento, legislações ambíguas, corporativismo e ao fato de serem chamados a atuar em momentos em que o cliente se encontra psicologicamente abalado por um risco físico ou financeiro apresentando, portando, com uma menor capacidade de negociação. Também dispõem de conselhos e organismos de classe atuantes e zelosos da preservação de seus mercados de trabalho. Como concorrentes dos advogados, temos apenas os conselhos arbitrais dentro das limitações legais. Seu mercado de trabalho pode ser considerado como um monopólio, praticamente inexpugnável. No caso dos médicos, há a concorrência dos curandeiros em geral, dos charlatães e da automedicação, todos condenáveis e de alto risco, mas que são fruto da ignorância gerada pela falta de preocupação social dos vários governos e pela ineficiência do sistema público de saúde. Nesse contexto, estas são profissões que, afora seu resultado prático, alcançaram o mais elevado prestígio dentre as existentes no Brasil. Não se trata de menosprezar sua importância ou desglamurizá-las. Também não podemos esquecer que muitos dos profissionais destas áreas prestam serviços gratuitos, às vezes com prejuízo financeiro e pessoal, com real espírito humanista. Tampouco se deseja generalizar atitudes e posturas de minorias, comuns em todas as profissões. O objetivo é fazer uma analogia, e para que ela seja efetiva, é necessário que a análise seja pragmática e despida, dentro do possível, de aspectos subjetivos. Analisemos, agora, a engenharia e a arquitetura, em suas várias habilitações. Alguém desconhece a importância efetiva dessas profissões no cotidiano, no desenvolvimento do país e como base de apoio e viabilização do exercício das demais profissões? Se houver mãos levantadas é culpa nossa, porque não celebramos nem divulgamos este valor. Este é um assunto para uma próxima oportunidade Adilson Luiz Gonçalves é engenheiro civil e professor universitário |
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