|
||||||
| Paulo Roberto Andrade Cunha É consenso entre produtores, técnicos, ambientalistas e órgãos governamentais que o contínuo crescimento da pecuária brasileira, com maior oferta de carne bovina para atender às crescentes necessidades do mercado, passa por duas questões interligadas e que começam a ganhar espaço em todo o mundo: o respeito ao meio ambiente e o bem-estar do animal. Se hoje o tema de maior evidência na pecuária é a rastreabilidade, compreendida pela necessidade de cada boi ter o seu RG para atender exigências de importadores da nossa carne, o bem-estar animal é o próximo item da lista. Na União Européia, bovinos, suínos e aves já ganharam legislação específica, que determina desde o volume de produção por metro quadrado às práticas de nutrição, sanidade e até abate, que tem de ser humanitário. Como a União Européia é nosso principal mercado de exportações de carne bovina, a qualquer momento chegarão por aqui as novas regras de produção necessárias para atender às exigências dos compradores europeus. Aí, a correria se repetirá, como ocorre hoje em relação à rastreabilidade. À luz da verdade, as discussões envolvendo produção e meio ambiente no Brasil já começaram. E encaminham-se para uma situação de impasse. A legislação em vigência obriga os produtores rurais a destinarem parte de suas propriedades (matas ciliares, veredas, pântanos, mangues etc.) como áreas de preservação permanente, objetivando a proteção dos mananciais de água. Mas, se não bastasse isso, ainda somos obrigados por lei a destinar mais 20% da propriedade como reserva legal (na Amazônia Legal, são 50%). Que fique claro que nós, pecuaristas, apoiamos o movimento em prol da qualidade de vida, mas enxergamos vários problemas nessa questão: Por que quem vai pagar a conta somos apenas nós, os produtores rurais, obrigados a destinar parte de nossas fazendas para atender a essa exigência estatal, se os benefícios serão de todos? E como ficam as culturas perenes com essa lei? Ou seja, as propriedades já ocupadas com culturas agrícolas também terão de sacrificar parte de sua produção para criar áreas de preservação? Aparentemente sim. Fica aqui, aliás, uma sugestão às autoridades. Ao invés de cada propriedade ter uma área de preservação independente, porque não usar o exemplo norte-americano e fazer poucas e grandes áreas de reserva, com biodiversidade e sustentabilidade, para que, aí sim, a fauna e a flora possam ser preservadas com todo o acompanhamento necessário? Isso não é tudo. A obrigação de tirar licenças ambientais para produzir o gado - ou qualquer outra atividade agropastoril que tenham impacto no meio ambiente - também encarece os custos e prejudica a competitividade da pecuária exatamente no momento em que o mundo se curva às vantagens de nossa carne bovina. Sob o ponto de vista de retorno econômico do negócio a redução da área disponível para o produtor em sua própria fazenda não é uma equação fácil de resolver. Repito: como brasileiro, apóio integralmente o respeito ao meio ambiente e ao bem-estar dos bovinos e demais animais. Mas como pecuarista e dirigente de entidade de classe, revolto-me com os oportunistas que se aproveitam de situações específicas para criar barreiras ao nosso desenvolvimento. E olha que estamos falando de alimentos de alta qualidade, produzidos para atender às necessidades nutricionais da população. É exatamente pela importância desse tema - e pelos rumos que essa discussão pode seguir - que realizaremos um painel sobre bem-estar animal e meio ambiente no 4.º Encontro Nacional do Boi Verde, programado para 29 a 31, no Center Convention, em Uberlândia (MG). Rastreabilidade, gestão da atividade pecuária, saúde animal, manejo de pastagens e mercado também serão analisados no evento, que recebe mais de 800 pecuaristas e profissionais ligados à pecuária de todo o País. Paulo Roberto Andrade Cunha é presidente do Sindicato Rural de Uberlândia FONTE: Agência Estado |
||||||